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Socióloga Priscila de Aquino fala da cultura do estupro


Pesquisa Datafolha aponta que um terço da população responsabiliza a mulher pelo estupro

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O Datafolha divulgou hoje (21/09) pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e constatou que 33% da população brasileira consideram a vítima de estupro culpada. E apontou mais: 42% dos homens e 32% das mulheres concordam com a afirmação: “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”.

Mais detalhes da pesquisa aqui

Em Junho deste ano, o Portal Rede Popular realizou uma entrevista com a socióloga Priscila de Aquino Matos e o tema tratado foi “cultura do estupro”.

Leia a entrevista:

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Priscila de Aquino Matos – Socióloga e servidora pública na Pró-reitoria de Extensão do Instituto Federal de São Paulo.

 

Rede Popular – O que você achou da cobertura que a mídia fez do caso do estupro coletivo no RJ?

Priscila Aquino – Segundo os dados do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública que foram divulgados no final de 2015, cujos registros das denúncias são obtidos por meio de Boletim de Ocorrência em todo o país, demonstraram que, em 2014, 47,6 mil pessoas foram vítimas de estupro no Brasil, significa que, a cada 11 minutos, alguém sofre esse tipo de violência no país. O caso do estupro coletivo no Rio de janeiro só teve a atenção da grande mídia, pois o número de agressores foi impressionante, ou seja, é preciso que haja números impressionantes ou crimes extremamente violentos para termos a atenção da grande mídia na questão da violência contra a mulher no Brasil. Acredito que mais do que a mídia tradicional, as redes sociais foram um espaço importante não só para a veiculação das informações, mas também para promover o debate, como vem sendo em muitos outros casos. A partir disso pudemos observar que boa parte da discussão foi sobre a hipersexualização do corpo da mulher, mas também que a mídia, na nossa sociedade, se preocupa mais em investigar a vida pregressa da vítima do que o próprio crime, numa tentativa de achar elementos que justifiquem as violências cometidas.

Rede Popular – A imprensa reproduz a cultura que “responsabiliza a vítima de estupro e não o agressor”?

Priscila Aquino – Com certeza. A imprensa de um modo geral tende a tratar os agressores como monstros isolados ou pessoas com distúrbios psicológicos, quando na realidade são pessoas comuns (muitas vezes um conhecido da vítima) que cometem esse tipo de violência. Podemos dizer que a imprensa repercute o pensamento coletivo da “cultura do estupro”, pois essa cultura está presente na nossa sociedade. A cultura do estupro é a cultura que normaliza a violência sexual. É nesse contexto que as pessoas não são ensinadas a não estuprar, mas sim ensinadas a não serem estupradas. Quando nós duvidamos de um relato em que a vítima se diz vítima de um estupro, ou quando buscamos algo que justifique que ela provocou o estupro ou um assédio, como por exemplo, o tipo de roupa que a vítima vestia ou suas preferências sexuais, nós também estamos colaborando com a cultura do estupro. Quando alguém é vítima de um roubo, a imprensa não vai até a casa dessa pessoa perguntar quais eram seus comportamentos até o dia do crime, eles fazem a reportagem sobre o crime e o seu desenrolar. No entanto, quando são crimes de violência contra a mulher, eles fazem questão de averiguar os comportamentos das mulheres antes do crime, questionando a roupa que a vítima vestia, por que ela estava em determinado local, determinada hora…

Rede Popular – A advogada disse que o delegado tratou a vítima como culpada. Esse comportamento por parte das autoridades te surpreende? O delegado chegou a ser substituído, o que você achou disso?

Priscila Aquino – Infelizmente não é incomum lermos relatos de vítimas que ao denunciarem crimes, sofrem mais uma violência.  Há um despreparo das pessoas envolvidas em receberem denúncias que envolvam a violência contra a mulher, já que muitas vezes as vítimas são compreendidas como causadoras da situação que gerou a violência. Quanto à substituição do delegado, eu acredito que tenha sido uma ação importante para o andamento do caso, uma vez que ele foi acusado pela advogada da vítima de que ele a constrangia durante o depoimento. Pelo o que eu pude acompanhar, dentre outras coisas, o delegado chegou a questionar se “a vítima tinha hábito de fazer sexo em grupo e se ela gostava disso”, na tentativa de desqualificar a denúncia dela, tentando demonstrar que ela poderia ter hábito de praticar aquele tipo de relação sexual que estava no vídeo. É nesse sentido que podemos dizer que muitas pessoas buscam na vida pregressa da vítima, elementos que a desqualifiquem e consequentemente desqualifiquem a denúncia do crime, porque mesmo se ela tivesse esse tipo de hábito, naquela situação não houve consentimento, ela estava desacordada sendo violentada por vários homens.

Rede Popular – Pesquisas recentes mostraram que 65% das pessoas culpam as mulheres, vítimas de estupro, por causa de roupas curtas, por exemplo. Que avaliação você faz desse quadro e como revertê-lo?

Priscila Aquino – A pesquisa a qual você se refere é a Pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cujo tema era “Tolerância social à violência contra as mulheres”, em que foram ouvidas 3.810 pessoas em 212 cidades entre maio e junho de 2013. A grande repercussão dessa pesquisa aconteceu quando, num primeiro momento, foi demonstrado que 65,1% concordavam inteiramente ou parcialmente com a afirmação “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Como forma de repúdio, rapidamente surgiu a campanha na internet “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, que teve milhares de adesões. Porém oito dias depois da divulgação do resultado, o instituto afirmou que o percentual correto é 26%. Numa conta rápida, podemos concluir que 65% abrangeriam uma quantidade maior de pessoas que tem esse tipo de pensamento, mas o que é preocupante é que seja 65% ou 26%, o fato é que esses dados revelam que existem pessoas que culpam a vítima pelo crime sofrido. Acredito que a melhor maneira para reverter esse quadro seja discutir e problematizar as conseqüências desse tipo de pensamento na sociedade.

Rede Popular – As mulheres sofrem assédio diariamente. Os casos em transporte público são emblemáticos. A opressão tem várias faces, portanto, conscientizar é tão importante quanto penalizar, correto?

Priscila Aquino – Quando o assunto é violência contra a mulher não dá para pensar em uma alternativa, é necessário pensar em um conjunto de ações no sentido de Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra Mulher, a fim de garantir a todas as mulheres uma vida sem violência.

O trabalho de conscientização, focadas em crianças e adolescentes em escolas e comunidades, trabalhando questões de gênero, direitos humanos, diversidade, violência etc, acredito ser a ação mais promissora no campo da prevenção. Porém quando o crime já foi cometido, o agressor deve ser punido, pois muitas vezes, a descrença na justiça e a falta de punição aos agressores facilitam a repetição da violência contra as mulheres. Acredito que caiba problematizar e discutir o tipo de punição nesses casos de violência, no sentido de averiguar a sua eficácia.

Rede Popular – Você considera que o Brasil avançou na luta por igualdade de gênero?

Priscila Aquino – Eu acredito que a discussão sobre gênero vem ganhando espaço na ciência, principalmente nas ciências sociais e em conjunto com os movimentos sociais, vem conquistando um espaço de debate bastante interessante e principalmente se tornando mais popular por meio das redes sociais. Acredito que o Brasil tem inúmeros pontos a serem trabalhados para que nós possamos nos tornar um país mais democrático (não é a toa que muitas pautas das feministas do passado ainda se fazem presentes nos movimentos). Além disso, as estatísticas sobre violência contra a mulher ainda tem números alarmantes, o conservadorismo na política me assusta bastante, o posicionamento de alguns grupos sobre o debate sobre “ideologia de gênero” nas escolas, a extinção do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, a falta de representatividade de mulheres e de outras minorias na política, entre outras questões que vem sendo debatidas na esfera pública, nos faz pensar se realmente nós estamos avançando nessas questões.

Rede Popular – Ocorreu em várias câmaras municipais do país reação à inclusão do tema “ideologia de gênero” na grade escolar da rede pública. Como você avalia esse fato e a escalada conservadora no país, contra, inclusive, o feminismo?

Priscila Aquino – Acho que o tema tem sido tratado com ignorância e com fanatismo religioso. As discussões que vem acontecendo em espaços de como as Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas, demonstram que alguns grupos têm atuado no sentido de “barrar” das diretrizes educacionais, as orientações referentes a valorização da diversidade, e promoção da igualdade de gênero.” Infelizmente há poucos políticos comprometidos em promover a igualdade e o respeito à diversidade, mesmo que essa seja uma demanda da sociedade. Ignora-se que a igualdade de gênero é tão importante quanto à igualdade racial ou regional. Gênero não é mais um conceito apenas utilizado pela academia, ele está presente nos movimentos sociais e nas políticas públicas. Ele foi criado para designar as construções sociais sobre o masculino e o feminino e em pouco tempo foi incorporado no movimento feminista, pois viram nesse conceito uma ferramenta de desconstrução de verdade absolutas impostas sobre homens e mulheres. Portanto, discutir gênero é discutir a pauta LGBT (criminalização da homofobia, diversidade sexual…) e também discutir as desigualdades no mercado de trabalho, violência nas ruas e nos domicílios, falta de representatividade política…Por esse motivo é tão importante exigir que o estado, que já é laico na teoria, seja laico na prática. A laicidade do Estado é um princípio essencial para a democracia, pois permite que as políticas de estado não sejam orientadas por uma religião. Caso isso acontecesse, o estado promoveria a superioridade de um grupo sobre os demais, ele seria excludente, não democrático e intolerante com as diferenças, e é isso que estamos observando atualmente.

Rede Popular – Os críticos classificam “ideologia de gênero” e feminismo como “coisas de comunistas que querem acabar com a família tradicional”, como lidar com esse tipo de obscurantismo?

Priscila Aquino – É comum vermos autoridades religiosas e representantes políticos dizendo que a discussão de gênero nas escolas apresentaria um potencial destruidor da família e dos valores cristãos. Muitas pessoas acreditam e reproduzem a ideia de que o feminismo e o movimento LGBT promovem a “ideologia de gênero” e essa ideologia faria parte de uma imposição ditatorial visando uma sociedade marxista, atéia, perversa, antinatural que tornaria a vida imoral e doente. Porém não vejo fundamento no discurso que diz que existe esse “plano maligno”, vejo que há desconhecimento sobre os temas gênero e sexualidade, justamente porque é um tema muito valoroso e ao mesmo tempo visto com certo receio. Discutir gênero na escola não se trata de ensinar crianças e adolescentes a serem homossexuais ou transgêneros, mas se elas assim o desejarem, que elas sejam acolhidas e não excluídas, vítimas de preconceito, trata-se de educar crianças e adolescentes para uma sociedade que promova a igualdade, que seja tolerante e respeite essas diferenças. São tempos difíceis para quem acredita na importância dos Direitos Humanos, mas isso não é de hoje. Portanto é preciso resistência, fazer valer o Estado Laico e buscar meios de aproximar essas temáticas da população em geral, no sentido de afastar esses mitos.

Rede Popular – Os movimentos feministas são heterogêneos, em que eles convergem?

Priscila Aquino – É, o movimento feminista é diverso, há várias correntes dentro do feminismo, com pensamentos e posicionamentos distintos, portanto costuma-se dizer que há vários feminismos e que eles estão em constante construção. É complicado falar pelas diversas correntes, mas pelo o que eu venho acompanhando, pode-se dizer que hoje os movimentos feministas continuam lutando por pautas que vem dos movimentos passados, como por exemplo, ter salários iguais aos homens quando for desempenhada a mesma função, que os afazeres domésticos sejam de igual responsabilidade entre homens e mulheres, combater a violência doméstica, lutar pela liberdade sexual e reprodutiva da mulher… Além dessas pautas que já são conhecidas, arrisco dizer que os movimentos atuais têm como pauta a liberdade. Acredito que eles têm em comum o fato de que as mulheres estão cansadas de terem que se encaixar em padrões já estabelecidos – padrões de beleza e também de comportamento- elas desejam ser livres para escolher seu modo de vida, elas acreditam que as mulheres não devem ser julgadas, muito menos violentadas pelas escolhas que fazem.

Rede Popular – Qual o maior desafio do feminismo e das mulheres no Brasil atualmente?

Priscila Aquino – Acredito que, no atual quadro político, é um dos grandes desafios não deixar que aconteçam retrocessos referentes aos direitos que já foram conquistados pelas mulheres e por outras minorias políticas.

Por André Henrique, diretor do Rede Popular

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