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Grande mídia frequentemente falseia fatos, diz Gabriel Priolli


Jornalista defende a criação de uma agência de regulação da mídia brasileira

Por André Henrique

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Gabriel Priolli – jornalista e consultor político. Colunista do site “Nocaute”.

Com vasta experiência nas principais redações de jornalismo impresso e de telejornalismo, além de produtor de vídeos de campanhas eleitorais e professor universitário, Gabriel Priolli é um dos mais respeitados especialistas em comunicação do Brasil.  

Em entrevista ao portal Rede Popular, Priolli afirma que a mídia nacional produz conteúdos voltados para os interesses privados e não para a cidadania. Ao avaliar os impactos dos meios digitais no jornalismo, alerta para o perigo da profusão de sites e blogs que produzem conteúdos sem critérios profissionais, mas enfatiza que os veículos tradicionais “são também grandes responsáveis pela pós-verdade, ao adotarem uma linha editorial ideologizada, por vezes mesmo partidarizada, que frequentemente omite, deturpa ou falseia completamente os fatos”.

Gabriel Priolli defende a criação de uma agência reguladora da mídia brasileira e a proibição da propriedade cruzada, de modo a garantir pluralidade e romper oligopólios. 

Acompanhe esses e outros pontos da entrevista:

Rede Popular – Reed Hasting, presidente do Netflix, disse que em 20 anos 90% do consumo de comunicação virão de plataformas digitais, como Netflix e Youtube. O jornalismo migrará totalmente para o digital? O jornalismo impresso sobreviverá?

Gabriel Priolli – A previsão de Hasting, se confirmada, poderá afetar apenas o telejornalismo. As principais plataformas de produção e difusão do jornalismo atual já são digitais, a começar dos portais e sites dos veículos, prosseguindo pelas redes sociais. É um pouco melancólico que o jornalismo impresso esteja em extinção, considerada a beleza das artes gráficas e o conforto do manuseio de jornais e revistas. Mas, para a informação das pessoas, é irrelevante que ele não sobreviva, se a mesma informação for oferecida em meio digital.

Rede Popular – Vale a pena ainda investir em jornalismo impresso ou um executivo da comunicação deve hoje privilegiar exclusivamente o digital?

Gabriel Priolli – Depende do nicho de mercado e/ou do local que o empreendimento pretende atender. Ainda vejo muito espaço para o jornalismo impresso especializado, ou para o jornalismo local, em cidades pequenas e médias. Nessas, o “passamento” do impresso vai demorar mais do que nas metrópoles e cidades maiores.

Rede Popular – As grandes reportagens foram afetadas pelos cortes de gastos nas redações. O  jornalismo investigativo está em crise ou ganhou fôlego com a internet?

Gabriel Priolli – Sem a menor dúvida, está em crise. A grande reportagem investigativa é um gênero jornalístico em extinção, dado o custo elevado de produção e a dificuldade de financiamento. A internet não pode ser responsabilizada por esse declínio, mas não colabora em nada para revertê-lo. É rara a grande reportagem também nos meios digitais. A questão de fundo é que as organizações puramente jornalísticas, fundadas por jornalistas para o exercício do jornalismo, no interesse informativo da cidadania, estão em declínio. Cada vez mais, são absorvidas por grandes grupos de mídia, que tem foco principal no entretenimento, ou são controladas pelos bancos, que querem fazer dinheiro, não notícia.  

Rede Popular – O mundo digital restringirá ou ampliará o mercado para os jornalistas?

Gabriel Priolli – O mundo digital vem restringindo o mercado para os jornalistas, até porque a facilidade de operação das suas ferramentas fez explodir o jornalismo amador, com uma profusão incontável de blogs e perfis nas redes sociais postando conteúdos em linguagem jornalística, ou muito assemelhada. Informação, de toda forma. Ainda não consigo enxergar o que possa reverter essa tendência de encolhimento do jornalismo profissional e aumento do dito “jornalismo cidadão”.

Rede Popular – Em meio a tantas notícias falsas, nas redes sociais, os veículos tradicionais se sobressaem em termos de credibilidade por serem marcas consolidadas?

Gabriel Priolli – Sem dúvida, a tradição confere mais credibilidade às marcas jornalísticas já consolidadas. Mas elas são também grandes responsáveis pela pós-verdade, ao adotarem uma linha editorial ideologizada, por vezes mesmo partidarizada, que frequentemente omite, deturpa ou falseia completamente os fatos. Nem só de redes sociais vivem as “fake news”, como a imprensa quer fazer crer. Tem muito veículo jornalístico nesse “mercado”… 

Rede Popular – A “grande mídia brasileira” está nas mãos de algumas famílias. O jornalismo digital por si só garantirá ou já garante a pluralidade?

Gabriel Priolli – De certa forma, sim, o jornalismo digital já garante uma ínfima pluralidade. Mas a diferença de escala, entre o alcance do material digital da grande mídia e o dos veículos independentes, ainda é colossal. O pensamento já não é tão único quanto gostariam os donos da grande mídia, mas ainda é pouquíssimo plural. 

Rede Popular – Quais os principais impactos dessa falta de pluralidade para o desenvolvimento da democracia no país?

Gabriel Priolli – Um presidente “suicidado”, uma ditadura militar e três governantes depostos em apenas 60 anos dão a medida precisa do impacto que uma mídia uníssona tem, sobre a sempre claudicante democracia brasileira…

Rede Popular – Existem modelos de jornalismo independentes do mercado e do estado?

Gabriel Priolli – Já foram tentados nas emissoras públicas. Todos fracassaram. Nem o mercado nem o Estado têm interesse em jornalismo independente, se tiverem de pagar a conta dele. Quem paga sempre quer mandar e isto significa, no Brasil, publicar apenas o que interessa, falar dos amigos, atacar os inimigos e omitir tudo mais. 

Rede Popular – Os veículos de comunicação no Brasil são dependentes de verbas estatais, geralmente direcionadas politicamente e privilegiando marcas tradicionais. Quais critérios fariam a distribuição mais justa e plural?

Gabriel Priolli – O critério técnico já existe, é o alcance do veículo, o público que ele atinge, somado à sua responsabilidade e credibilidade editorial. Ocorre que esse critério não é democraticamente aplicado. Nos governos petistas, houve avanço nesse campo, o número de veículos beneficiados pela publicidade oficial aumentou muito, de centenas para milhares. Mas agora, sob o governo resultante do impeachment e a desmontagem de todo o legado petista, voltamos ao esquema de sempre: o grosso da verba para os grandes veículos e o restante para todos os outros.

Rede Popular – O professor defende a regulação da mídia? Se sim. Quais medidas deveriam ser prioritárias?

Gabriel Priolli – Defendo. As medidas a tomar são a aprovação de uma Lei Geral da Mídia, atualizando toda a legislação fragmentária existente, e a criação de uma agência reguladora específica para a mídia, nos moldes do OfCom britânico (Para saber mais, clique aqui).

Rede Popular – Enquanto no Reino Unido e nos EUA vigem sistemas rígidos de regulação das comunicações, inclusive limitando a propriedade cruzada, a “grande mídia” brasileira trata esse debate como “censura”; o que o professor acha disso?  A propriedade cruzada (quando um mesmo grupo controla jornais, rádios e televisões) deveria ser proibida no Brasil?

Gabriel Priolli – Tratar o debate sobre regulação de seu setor como “censura” é um velho truque da mídia mundial, devidamente copiado aqui, onde tem ressonância especial na cidadania, em decorrência de 21 anos de censura sob a ditadura militar. Mas é apenas um truque, que mal esconde a sua motivação: evitar qualquer regulação ou, não sendo possível, comandá-la.

Para obter isso – o mercado desregulado -, a mídia se vale da sua antiga aliança com as oligarquias regionais, obtida por meio de acordos de distribuição de conteúdos ou de afiliação em redes, com os veículos dessas oligarquias. Como elas se representam no Congresso Nacional e controlam a maioria dos votos das duas casas, seja qual for o governo, obstruem todas as iniciativas regulatórias.

E o fazem com toda a tranquilidade, porque são apoiadas pela desqualificação e desmoralização que a mídia opera sobre todas as vozes críticas, sempre retratadas como autoritárias, inimigas da liberdade de expressão. Ou seja: livrar a mídia de regulação, deixá-la a salvo de obrigações que outros setores têm, seria um virtuoso esforço de combate à censura…

Sobre a propriedade cruzada, sem dúvida, sou inteiramente a favor da proibição. Os grupos midiáticos brasileiros são enormemente concentrados, o que estabelece um claro quadro de oligopólio nesse setor. Romper o oligopólio, obrigando as empresas à venda de veículos “cruzados” e favorecendo a entrada de novos grupos, oxigena o mercado em todas as dimensões, da econômica à editorial.

Rede Popular – Alguns sites de notícias publicaram que o governo federal estuda cobrar taxas  do Netflix. Isso pode ser encarado como uma reação das TVs tradicionais?

Gabriel Priolli – O VOD (video on demand) é um serviço audiovisual como outro qualquer e, portanto, deve ser devidamente taxado, para que também contribua com impostos para o desenvolvimento do país que lhe garante os lucros. Mas, no caso da iniciativa atual em relação ao Netflix, é certo que há a radiodifusão por trás da ação do governo, pressionando pela taxação. As televisões estão no seu papel de atrapalhar os concorrentes, isso faz parte do jogo de mercado. O que está fora da ordem é elas terem o poder de coação que têm, sobre o Estado e o mundo político. Se o Netflix é pouco regulado, toda a mídia igualmente é e a legislação desse setor está atrasada em décadas. 

Rede Popular – O Estado tem condições de controlar os conteúdos dessas novas plataformas digitais? O estado deve regular tal conteúdo? 

Gabriel Priolli – Se o jornalismo contemporâneo configura-se como uma instância de poder, pelo controle ideológico que exerce ativamente sobre a sociedade e o uso político que não hesita em fazer desse controle, o Estado deve, sim, regulá-lo rigorosamente. Tanto nos aspectos negociais e técnicos quanto no que tange ao conteúdo.

Regular com uma legislação democrática, bem entendido. Uma lei devidamente discutida e aprovada no Congresso Nacional, a salvo de lobbies e expedientes ilegítimos junto aos congressistas. No contexto atual, o Estado não tem condições nem, muito menos, interesse de fazer esse controle. A mídia é parte do dispositivo de poder, não permite que seja eficientemente regulada.

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