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Brasília em chamas simboliza a virada do jogo


Se há um ano, as perspectivas eram ruins pra esquerda, agora é a direita quem está na defensiva

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Quais as conclusões políticas mais comuns depois do impeachment de Dilma Rousseff?

“O PT acabou”. “Lula será preso”. “Dilma tornar-se-á um zumbi político”. “Os blogueiros de esquerda serão destruídos jurídica e financeiramente”. “As esquerdas perderam as ruas e vão se enfraquecer”. “O país entrará em um reformismo liberal e haverá apenas a grita de militantes de esquerda, mas as reformas passarão e a economia voltará a crescer”. Enfim.

Os cenários descritos eram mais ou menos esses. As mentes pragmáticas alertavam para os riscos que Temer correria com a Lava-Jato e as dificuldades que teria para convencer a sociedade a apoiar as medidas de austeridade fiscal.

A partir das propostas de mudanças na Previdência, a popularidade do governo Temer chegou ao volume morto. O presidente seguiu a dar de ombros à opinião pública e aprovou em um Congresso governista a PEC que limita gastos públicos por vinte anos e colocou em votação a reforma trabalhista e a previdenciária.

Apesar de impopular, Michel Temer contava com apoio do Congresso, mercado financeiro, empresariado e da grande mídia. O efeito colateral das propostas recessivas foi o crescimento de Lula nas pesquisas e a impopularidade do governo federal, mas não havia risco de Temer cair antes de 2018, nem clima para ele ser cassado no TSE, até as delações dos irmãos Batista, donos da JBS, que mudaram bruscamente a conjuntura.

O conteúdo das gravações da conversa de Joesley Batista com o presidente da República destruiu a carreira política de Aécio Neves e tornou a situação do governo Temer insustentável. Com medo de perder o foro privilegiado, o peemedebista resiste, mas um a um de seus auxiliares o deixam e a base aliada já articula uma transição via indireta.

O risco de Michel Temer ser cassado no TSE aumentou – neste caso, ao menos, ele dividiria o fardo com Dilma, já que a chapa seria cassada. A petista segue viva, politicamente, manteve seus aliados mais próximos e viaja o Brasil e o mundo denunciando o golpe que sofreu. E a tese do golpe ganha cada vez mais relevo com a derrocada do governo peemedebista.

As ruas de Brasília e de várias capitais estão tomadas pelas esquerdas em protesto contra as reformas e por diretas já. O presidente Temer chegou a requisitar reforço militar e vários ministérios foram evacuados, por conta do avanço dos manifestantes. A direita sumiu das ruas e se cala diante da corrupção de seus líderes de cabeceira.

O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva lidera todas as pesquisas para presidente e contra ele não surgiram provas, como ficou claro no depoimento a Moro, em que o juiz falou de matérias que envolvem outros inquéritos, o que é ilegal, e fez suposições, baseadas em “achismos”, além de bater boca com o ex-presidente. Moro deu palanque ao petista, e saiu perdendo.

O esfacelamento das lideranças políticas e dos partidos conferiu popularidade e espaço para togados agirem politicamente e a reboque da lei, em alguns casos. O governismo, liderado por PMDB e PSDB, e seus sequazes na imprensa, entraram em conflito com o judiciário, as consequências são conhecidas: Michel Temer e Aécio Neves, articuladores do impeachment, destruídos; e a cabeça de jornalista governista sendo cortada, vide o caso Reinaldo Azevedo. Não ia sobrar apenas para os blogueiros de esquerda?

O jogo virou. Se a há um ano, as perspectivas das esquerdas eram terríveis, e as da direita animadoras, agora acontece o contrário. A direita está rachada. Não há consenso sobre o substituto de Michel Temer, por via indireta, fortalecendo a possibilidade de “direitas já”. Dificilmente um governo de transição mesmo que eleito indiretamente terá condições de levar adiante as reformas impopulares. O governo Temer acabou. O moralismo tucano virou fumaça.

Mas ainda tem disputa, porque o principal nome da esquerda, Lula, ainda pode ser inviabilizado juridicamente. O momento é de esquerda na ofensiva e direita na defensiva. Brasília em chamas não me deixa mentir.

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