Home / Análise/Opinião / Esquerda mostra coesão em Copacabana

Esquerda mostra coesão em Copacabana


Esquerda reúne em Copacabana diferentes campos do progressismo como não fazia desde os anos 80.

protesto

Não se via uma unidade das esquerdas nas ruas como a que se viu ontem em Copacabana desde os tempos dos manifestos por redemocratização na década de 80 do século passado.

Sim. De lá pra cá a esquerda cresceu e se fragmentou. Foi governo por 13 anos. E poderia ter sido por 16, não fosse o golpe parlamentar de 2016, liderado por PSDB e PMDB.

É claro que nesse percurso as diferenças entre os progressistas se acentuaram. Uns carregaram os símbolos da esquerda tradicional e são hostis à democracia liberal. Outros buscam “humanizar” o capitalismo e vêem a democracia liberal como valor universal. Outras vertentes focam questões específicas, como as ambientais, culturais e direitos humanos. Enfim, cada um foi prum canto.

Neste domingo (28), no Rio de Janeiro, mais de cem mil manifestantes assistiram a shows de artistas e a discursos de políticos e intelectuais de diferentes vertentes esquerdistas. Caetano Veloso, progressista e moderado à esquerda, cantou para a multidão. Artistas da música e da dramaturgia marcaram presença. Criolo, Mano Brown, Milton Nascimento, Wagner Moura, Otto, Mart’nália etc. Centrais sindicais, partidos de esquerda e movimentos sociais, mesmo os que divergem do lulopetismo, uniram-se. No coração de todos o grito por eleições diretas e o sentimento de repúdio às reformas neoliberais e ao governo Michel Temer.

Arrisco afirmar que o ato foi o mais emblemático, para as esquerdas, desde as passeatas por “diretas já”, na década de 80, porque os dois movimentos unificaram minimamente o progressismo em torno de causas comuns. De lá pra cá aconteceram manifestações de esquerda até maiores, mas não com a mesma coesão.

As reformas impopulares do governo do PSDB e do PMDB mais as articulações por eleições indiretas no Congresso atraíram e juntaram grupos progressistas que estavam dispersos e em sono profundo. Os manifestos em Copacabana simbolizaram esse processo.

A pauta e as dificuldades

As esquerdas pedem eleições diretas por entenderem que, depois de as investigações da Lava-Jato e de outras operações escancararem que a maioria dos congressistas é comprada por empreiteiros enroscados nas cordas da corrupção, o Congresso não tem legitimidade para eleger indiretamente um presidente da República.

Para ter eleições diretas, esse Congresso, que parte das esquerdas abomina, teria de aprovar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) mudando as regras do jogo e instituindo diretas já. Lula e Marina Silva seriam os beneficiados a princípio tendo em vista que lideram as pesquisas para presidente. O Congresso, de maioria conservadora, aprovaria essa mudança? Difícil.

Talvez, por sobrevivência, o centrão poderia fechar com Lula, por acreditar que o mesmo pacificaria o país e propiciaria sobrevida ao modus operandi dominante. Mas PSDB e PMDB estão com a máquina e podem reverter essa tendência, se ela surgir, oferecendo cargos e emendas parlamentares, em um eventual governo interino.

A estratégia

As lideranças tanto do PT quanto dos movimentos sociais sabem que é pouco provável passar no Congresso as eleições diretas. Entretanto, berrar nas ruas por essa causa é uma maneira de apresentar ao país o governo liderado por PSDB e PMDB como ilegítimo e golpista. Isto posto, em caso de um futuro governo escolhido pelos líderes desses partidos, a esquerda terá uma narrativa pronta: “opa, trata-se de um golpe dentro do golpe”.

Enfraquecer a legitimidade de um provável governo interino e desgastar o de Temer são maneiras de tornar o ambiente para a aprovação das reformas neoliberais cada vez mais desfavorável. Ou talvez um modo de o PT participar das negociações para o próximo governo com mais musculatura, podendo, exigir, dentre outras coisas, o adiamento das votações das reformas para 2019, quando o país terá um presidente eleito pelas urnas.

É verdade que as decisões serão tomadas no tabuleiro da realpolitik, e não nas largas avenidas de Copacabana, porém, vale ressaltar que a atmosfera das ruas terá influência na movimentação das peças desse jogo. Vai daí a importância dos manifestos de ontem para um provável xeque-mate das esquerdas.

Veja Também

Geraldo Alckmin avança, mas ainda não se consolida

Por André Henrique O momento não é de disputa pela presidência da República e sim ...