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A sobrevida de Michel Temer e os efeitos colaterais


Michel Temer vira o jogo, na realpolitik, mas favorece Lula, com as reformas e a batalha com o judiciário

Michel Temer chegou à presidência da República sabendo que contaria com apoios preciosos do Congresso, de setores do mercado financeiro, empresariado e da grande mídia, no entanto, teria dificuldades para convencer a sociedade de que as reformas seriam benéficas para os brasileiros.

Não seria fácil manter a base aliada dócil porque vários parlamentares estão na mira da Lava-Jato e o preço do impeachment não foi barato. Não obstante, o governo Temer é um criadouro de crises políticas e vários ministros caíram em menos de um ano.

A partir da crise desencadeada pelas gravações dos irmãos Batista, o presidente da República perdeu de cara o apoio da Rede Globo e o mercado na onda da emissora passou a se entusiasmar com a ideia de renúncia.

Nomes de possíveis substitutos passaram a pulular espontaneamente (risadas) o noticiário, como um experimento – “vai que um cola”. De Carmen Lúcia a Henrique Meirelles. De FHC a Nelson Jobim. Não colaram.

O PSDB quase deixou a base e Michel Temer por pouco não renunciou. Em demonstração de força interior e com medo de perder o foro privilegiado, o presidente juntou os cacos e deu sobrevida a seu governo.

Se Temer desde o princípio demonstra incapacidade em se comunicar com os brasileiros – até porque é difícil convencer as pessoas a gostarem de sopa de pregos -, no quesito articulação política em bastidor, o peemedebista é raposa velha e isso foi crucial para o mesmo recompor as forças.

Favoreceu Michel Temer a falta de consenso em torno de um nome para substituí-lo, mas em política um líder tem de ter a virtu para aproveitar a fortuna que lhe bate à porta.

O presidente entrou em campo e jogou com as cartas à disposição. Desde o início fortaleceu laços com Gilmar Mendes, para escapar no TSE. Acuado pelo judiciário, assim como centenas de parlamentares, o presidente declarou guerra a Janot, MP e Fachin, ganhando adesão de uma base aliada prestes a dissolver, dificultando, por tabela, a deserção tucana.

Com a vitória no TSE, o PSDB perdeu a justificativa que precisava para abandonar o barco, e Michel Temer ganhou fôlego político para sobreviver aos confrontos com o judiciário e cumprir o principal objetivo de seu governo: aprovar a reforma previdenciária e a trabalhista.

Não estou a discutir o mérito das reformas e do governo, mas apontando que Michel Temer, do ponto de vista da realpolitik, mostrou a habilidade política que faltou a Dilma na crise de 2015 – ainda que cheire mal a graxa que alimenta a engrenagem do presidencialismo de coalizão.

Para debelar a ofensiva de setores da grande mídia, do mercado e do judiciário; Michel Temer fez política com pragmatismo e realismo, e conseguiu manter-se no cargo, ao menos por enquanto. A ver os próximos capítulos dessa batalha entre o governo federal e nacos do poder judiciário.

Os efeitos colaterais e as apostas

A permanência de Michel Temer na presidência favorece Lula, por duas razões: a) o petista deixa de ser o alvo principal das querelas jurídicas e; b) as reformas impopulares que desgastam tucanos e o governo federal seguem no centro da discussão política.

A direita liberal-financista, nas sombras do presidente da República, não tem apoio popular e está rachada, mas aposta que Lula será inviabilizado na justiça e tenta construir um candidato apolítico para 2018. João Dória Jr é o favorito para tanto, por enquanto. Trata-se de um jogo hiper arriscado. Lula assiste de camarote, com Ciro Gomes, na reserva.

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