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Invasão Cultural


Autor fala da influência da invasão cultural estrangeira, especialmente a norte-americana, em nossos hábitos e valores

Por Odair Marques da Silva, professor universitário  

Há uma ilusão de liberdade nas nossas escolhas? Mas, será? Em um dos livros de Paulo Freire se encontra uma instigante reflexão sobre o termo “invasão cultural”. Esse conceito nos faz refletir sobre as nossas práticas antidialógicas, isto é, quando copiamos e apreendemos expressões e comportamentos de culturas outras, sem a devida avaliação se é interessante ou não para a nossa vida, pessoal ou coletiva.

Para o autor citado, a invasão cultural é uma ação premeditada e antidemocrática e a reafirma como a um mecanismo de dominação e uma tática de controlar o dominado, sem que esse se aperceba e se manifeste em adesão. Um dos exemplos clássicos no Brasil é a forma com que nos cooptamos ao “inglesismo” e ao modo cultural estadunidense de ser. Há exemplos aos milhares, nas placas que denominam os comércios, até nas periferias, no uso de modelos do vestir, as camisetas, as calças jeans, os ternos e gravatas (símbolos de status social), a substituição de palavras em português por termos em inglês, e por aí vai… Em conversa, com seus amigos e amigas, você pode continuar ilustrando em imensa lista de exemplos.

Mas, o que preocupa essa invasão? Exatamente ao afastamento da cultura local, a desvalorização de nós próprios, quando efetuamos as comparações que ridicularizam nossa cultura e enaltecem a do outro. Não de forma crítica e assertiva, mas de forma preconceituosa.

A diversidade e a convivência com a pluralidade cultural são qualidades importantes, construídas na constituição histórica do estar brasileiro. E isso é uma de nossas maiores conquistas. O que se enfatiza nessa reflexão está no cuidado para com a se manter manipulado e não se aperceber manipulado. Quando se assume a visão de mundo e os comportamentos do agente invasor não há liberdade de expressão ou autonomia interior, ao contrário, somos como que bonecos de marionete, não sujeitos de nossas ações, mas objeto dos interesses do outro. Freire constata que os invasores nos modelam e, enquanto invadidos, somos modelados.

Gostaria de ver nos programas de televisão filmes feitos na Índia, na Rússia, na África ou mesmo na América Latina, e há aos milhares. Por que há poucas vestimentas produzidas nesses países nas lojas? Por que não os mostram? Já pensou sobre isso?

Um outro autor que também aprecio, nas minhas leituras, Pierre Bourdieu, um francês que, entre vários estudos, pesquisa sobre o que é o gosto. Para esse estudioso o ato de gostar não é natural, mas ensinado e aprendido.  O curioso é que a estratégia da invasão cultural modela, justamente, os nossos gostos. Não gosto de verduras e frutas, mas amo batatinhas chips e cheeseburguer. A diversão predileta é o videogame ou a fofoca nas redes sociais digitais. A música agradável é em inglês, mesmo ao não entender o que se está a cantar.

Quando se fala que gostamos de algo ou que a odiamos, que se ama algo ou alguém, que aquela pessoa é isso ou aquilo, se demostra comportamento aos quais nos foram ensinados, por vezes, até incutidos. Não é misterioso, sobrenatural, opção pessoal ou liberdade de escolha.

Essa é a reflexão desse momento. Observe-se e faça a sua opção!

Prof. Dr. Odair Marques da Silva, docente na UNISAL/Campinas, doutorado na UTAD/Portugal, profissional da Unicamp e especialista em novas mídias e tecnologias aplicadas na educação, educador social e produtor cultural.

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