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Jovem que chegou atrasada no ENEM dá lição de humanidade


Depois de virar alvo de piadas na imprensa e nas redes sociais por ter chegado atrasada no ENEM, jovem estuda direito para combater humilhações cibernéticas

Por Rafael Bruza Wacked, jornalista e editor do portal Independente 

Em 2015, Hevellyn Nicolle da Silva Pedrosa, de 22 anos, chegou atrasada na prova do ENEM na Barra Funda, SP.
Sua reação desesperada virou meme compartilhado por todo país como símbolo do atraso.

Até hoje, dois anos depois, a foto da jovem aparece no Google quando procuramos os termos “atrasada ENEM”. A situação gerou posts virais, hashtags, matérias na imprensa e milhões de piadas de youtubers e internautas.

Mas ela relata que nunca gostou das brincadeiras nem da exposição.

“Eu ainda não consigo rir de tudo isso. Ainda me magoa. Meu maior medo é ser reconhecida em entrevistas de emprego como ‘a atrasada do Enem’. Isso não pode definir minha vida inteira”, declarou ao jornal O Globo. “Eu virei sinônimo de atraso. Nem precisa ser época de Enem para fazerem meme comigo. Não era essa assim que eu queria construir a minha imagem”.

A imprensa, que tem a função democrática de representar os cidadãos perante os poderes públicos e de informa-los adequadamente, adorou a comédia feita sobre os atrasados do ENEM.

Desde 2015, um exército de câmeras profissionais especializadas em entretenimento barato se dirige aos principais locais de realização da prova para tirar fotos dos “atrasados”, que são ridicularizados e expostos na mídia, como se o sofrimento deles fosse, de fato, divertido.

Neste ano, havia mais câmeras do que alunos atrasados, por sinal. Imagens, memes, vídeos, compartilhamentos, conteúdos na mídia … Todos riram de quem chegou atrasado do ENEM – menos eles, os atrasados.

A situação serve para mostrar como a busca incessante por audiência desumaniza os jornalistas e desvirtua a função democrática da imprensa: ao invés de orientar os estudantes e ajudá-los de alguma forma, jornalistas escolheram rir deles e mostra-los em situações vexatórias aos demais.

Lamentável escolha.

Agora Hevellyn Nicolle da Silva Pedrosa está na faculdade de Direito e pretende se especializar para defender vítimas de crimes e humilhações cibernéticas. Neste ano, ela ajudou alunos que poderiam se atrasar para a prova e inclusive coleciona todos os memes feitos com seu rosto para usar em seu trabalho de conclusão de curso.

“Coleciono todos os memes para usar no meu TCC. Até pensei em processar alguns youtubers, mas vi que seria muito difícil. Somos vulneráveis na internet”, afirmou.

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