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A desigualdade racial afeta a trajetória das crianças, diz pedagoga


Caroline Jango afirma que a ideia de “Democracia Racial” impede o debate sobre a desigualdade nas escolas do Brasil.

Por André Henrique, Rafael Bruza e Vinicius Bernardi

 

A pedagoga do Instituto Federal, Caroline Jango / Foto (Rafael Bruza)

 

A pedagoga do instituto Federal de São Paulo, Caroline Jango, fazia pesquisas sobre a desigualdade racial em escolas de redes municipais quando ouviu uma menina comentar um problema cotidiano, vivido em seu lugar de estudo. Ela declarou que “aqui” (na escola) “tem racismo”. A frase intitula livro da pedagoga (“Aqui tem Racismo”), que é resultado de sua pesquisa de mestrado, realizada em escolas de 19 municípios da região de Campinas, onde ela conversou com crianças, recolheu denúncias espontâneas e percebeu como os alunos negros não possuem assistência de professores ou da escola na hora de lidar com piadas, insultos e apelidos pejorativos, além de outros casos de racismo ocorridos em ambiente escolar.

“O olhar das crianças, recolhido em minha pesquisa, nos indica que a educação brasileira ainda falha no sentido de promover a valorização da diversidade etno-racial no espaço educativo”, conta Caroline, que aponta a teoria da Democracia Racial como um entrave para o debate sobre desigualdade nas escolas.

“Vivemos numa cultura que estruturalmente é racista. Vivemos elementos que indicam uma democracia racial e uma ilusória harmonia, mas temos desigualdades e assimetrias muito profundas. Esse discurso de igualdade impede a escola de olhar para essa questão e ver o quanto a desigualdade racial afeta a trajetória das crianças”, declara.

A pedagoga também ressalta que os professores têm deveres importantes para melhorar ou amenizar a situação.

“Todo profissional da educação precisa pensar nessa questão racial e entender como é a vivencia e a trajetória das crianças negras no espaço educativo. Entender como isso impacta na trajetória e no desempenho dessas crianças, além de perceber como isso causa sofrimento. Acho que isso é um dever do professor pensar nessa perspectiva e criar formas para modificar essa estrutura”, declara.

Caroline conversou com o Independente, em parceria com o canal Politike por Bernardi e o portal Rede Popular, para comentar realidades captadas em seu livro e outros assuntos da atualidade, como as propostas do Escola sem Partido, a política de cotas e o empoderamento de cidadãos negros.

Confira a entrevista em vídeo e, abaixo, em texto.

Caroline – A escola não dava centralidade para esta discussão. Pesquisas de outros profissionais indicam que a escola é um espaço em que o racismo e descriminação racial adentram, atravessando a trajetória das crianças. Resolvi desenvolver a pesquisa no intuito de entender melhor como estas questões ocorriam.

Independente – Quais foram as principais dificuldades na pesquisa?

Caroline – Existem pesquisas que estudam a questão racial na educação infantil, no entanto elas trazem o olhar do adulto, do professor e do pesquisador para a escola e a criança negra. Nós partimos do pressuposto de que as crianças negras são discriminadas no espaço educativo. Já temos elementos de pesquisa, informações e dados que mostram isso. Mas não tínhamos o dado de como a criança se sentia. Quisemos conversar com as crianças para saber o que elas poderiam nos trazer de informações e vivências que ajudassem a entender como a criança negra constrói sua identidade e como estas representações sociais são compartilhadas no espaço escolar. Então a principal dificuldade foi esta mudança no olhar.

Independente – As escolas estão preparadas para promover a igualdade racial?

Caroline – Minha pesquisa e outras pesquisas anteriores mostraram como a escola tem dificuldade em discutir essa questão. Vivemos numa cultura que estruturalmente é racista. Vivemos elementos que indicam uma democracia racial e uma ilusória harmonia, mas temos desigualdades e assimetrias muito profundas. Então esse discurso de igualdade impede a escola de olhar para essa questão e ver o quanto a desigualdade racial afeta a trajetória das crianças. Outras pesquisas destacaram a necessidade de discutir a questão racial dentro do espaço educativo, mesmo existindo uma legislação que altera a LDB (Lei Diretrizes Bases da Educação) e insere a discussão da temática africana, afro-brasileira e indígena no currículo escolar. Então hoje temos obrigatoriedade para as escolas e professores, mas não temos a efetividade dessa legislação, como indicaram outras pesquisas. E o olhar das crianças, recolhido em minha pesquisa, nos indica que a educação brasileira ainda falha no sentido de promover a valorização da diversidade etno-racial no espaço educativo.

Caroline com seu livro, “Aqui tem Racismo” / Foto (Rafael Bruza)

 

Independente – Durante sua pesquisa, a maioria das meninas negras que respondeu seu questionário declarou que gostaria queria ser a amiguinha branca. Como isto ocorreu e o que isto significa?

Caroline – Sim, para contextualizar, queria dizer que estamos falando de racismo e discriminação, que provocam sofrimento psíquico. Então eu não poderia dialogar com crianças negras sobre essa questão de forma que criasse sofrimento nelas. Organizei a pesquisa para conversar com as crianças sobre a escola, não sobre seu pertencimento racial. Ou seja, eu não pergunto, durante o questionário, se a criança sofre racismo. Mas, claro, a questão do racismo está imposta. Então as crianças vão contando espontaneamente as informações, discriminações e as situações que elas vivem. Uma das etapas da pesquisa é dialogar numa perspectiva hipotética. ‘Se ela pudesse ser outra pessoa, quem ela seria’? A resposta indica o padrão que é aceito. E aqui não entra só um padrão de beleza, mas também de inteligência. A pessoa branca ocupa um lugar social, pois a beleza e a inteligência tem cor e é branca. Então as crianças aprendem desde cedo qual é o padrão valorizado e qual é desvalorizado. A resposta da criança na pesquisa mostra qual é o padrão valorizado e qual é o desvalorizado.

Independente – As principais entrevistadas foram as crianças. Quais foram as principais revelações encontradas?

Caroline – O livro chama “Aqui Tem Racismo” porque foi a frase dita por uma das crianças, entre as denúncias que elas trouxeram. O trabalho principal é ouvir as crianças e como te disse, não coloquei a questão racial a elas. Então, espontaneamente, dialogamos sobre o que tem na escola e como é a vivência das crianças. Elas trouxeram essas situações. Então quando peço para me contar uma questão ruim vivida na escola, ela fala a questão do racismo.  Falaram “aqui tem racismo”, comentaram os apelidos pejorativos e os xingamentos, numa forma geral, denunciando essa questão racial.  A quantidade de crianças que fizeram essas denúncias foi muito grande, mesmo sem perguntar sobre esse assunto. Isso nos leva a entender que trata-se de algo extremamente importante.  Elas têm várias vivências positivas na escola, mas das vivencias negativas, as que mais destacam são experiências de discriminação racial. É importante dizer isso porque essa situação vai formando a identidade da criança. Influencia em como ela se sente e tem relação com o lugar que ela ocupa naquela escola. Além da denuncia das crianças, evidenciamos a não interferência dos profissionais da educação. Então as crianças na maioria das vezes passam por situações de preconceito e tem que resolver essa questão sozinha ou silenciar. Ou resolvem como conseguem ou ficam quietas, pois não tem apoio da escola nessa situação.

Independente – A sua pesquisa foi concluída em 2012 e você continua visitando as escolas. Você percebeu algum avanço ou a situação continua igual?

Caroline – Eu fui em 19 municípios. São 19 redes municipais diferentes, então não posso dizer como cada uma atua, mas a legislação está colocada para ser usada no sentido de fazer formação docente e propor novas possibilidades. Mas podemos perceber que ainda existe uma resistência em relação a essa discussão. Nem todos os profissionais veem essa discussão como algo importante ou necessário. Existem redes municipais, estaduais e federais que não criam a estrutura necessária para que essa discussão aconteça, pois precisamos de recursos, livros, elementos e materiais que viabilizem a discussão, mas nem sempre estão disponíveis. Então a formação e o material são importantes, assim como a fiscalização. A promoção de diversidade étnico-racial é uma obrigatoriedade prevista em lei, então é dever do município fiscalizar se essa proposta esta sendo implementada ou não. E há poucas redes que fazem essa fiscalização no sentido de dar essa estrutura e fiscalizar. Falta um acompanhamento para saber o quanto esta discussão está sendo acompanhada.

Independente – Queria uma avaliação sua sobre a política de cotas raciais.

Caroline – Essa política deve ser vista dentro deste contexto e não de forma isolada. Se olharmos os dados de desigualdade social do Brasil, como relatórios nacionais, da ONU e IBGE, por exemplo, tendo em vista que toda política pública tem dados oficiais que a respaldam, vemos que há uma desigualdade gritante. O acesso à educação, saúde, emprego… Em todas as áreas sociais existe uma assimetria. Logo temos políticas universais que visam reduzir as desigualdades. Nossas políticas universais não dão conta da desigualdade racial. Mesmo que haja uma política de universalização do ensino fundamental ou outra que vise qualidade do ensino médio, não é possível garantir que a população negra tenha uma trajetória com igualdade de oportunidade. Por isso precisamos de políticas compensatórias, que são as políticas de cotas, por exemplo. Então as políticas de reserva de vaga visam um desdobramento que as políticas universais não dão conta. Eu trabalho numa instituição federal e as políticas de cotas foram estabelecidas a partir de 2012. Essa política garante 50% de vagas para alunos de escolas públicas. Dentro das cotas para alunos a rede pública, há para alunos negros e indígenas e dentro destas últimas ainda existe uma cota socioeconômica. Inclusive existe um desconhecimento da sociedade sobre essas políticas que são compensatórias e que desejamos que sejam descontinuadas quando tivermos uma inserção desta população discriminada. Então entendo que é extremamente importante.

Independente – Você vê com preocupação essas mudanças de legislação propostas pelo Escola sem Partido, por exemplo? Você acha que essas propostas podem atrapalhar o debate sobre igualdade racial e de gênero?

Caroline – Primeiramente, nós temos um período recente de politicas de promoção da igualdade racial. Essas políticas no Brasil não têm nem 15 anos. A lei que obriga a inserção de historia e cultura afro é de 2003, por exemplo, também temos o estatuto da igualdade racial de 2010 e a lei de cotas, que é de 2012. Então a nossa politica, que de fato operacionaliza e torna factível a construção de uma sociedade mais igualitária é extremamente recente.  Logo é óbvio que toda mudança política e cultural vai influenciar nesse contexto. Se essa discussão não for central num governo, iremos prejudicar essa recente trajetória. O que quero dizer com isso é que movimentos como o Escola sem Partido, que visam tirar do currículo algumas discussões que pautam a questão da diversidade, são prejudiciais a essa promoção da diversidade. A escola por si só já é um lugar que agrega diversidade. Mas quando o viés do conhecimento serve um propósito político e ideológico, ele não contempla o todo. Não dá para pensarmos que o conhecimento é neutro. Quem produz conhecimento sempre coloca um pouco de si. Então o papel da escola é democratizar o conhecimento, discutir a questão da diversidade e promovê-la, ao invés de impedir que certas temáticas sejam discutidas ou abordadas. Então, quando falamos da autonomia do professor, que seria minimizada pelo Escola sem Partido, seguimos este sentido. O profissional da educação tem uma formação que é para discutir e trazer o conhecimento de uma forma geral. O professor tem que ter uma autonomia para desenvolver criticamente esse trabalho.

Independente – Hoje em dia é muito comum que as meninas negras assumam o cabelo crespo e a estética negra. Fala-se muito da valorização da cultura negra. Isso é um avanço ou uma falsa sensação de democracia racial.

Caroline – Ainda existe essa perspectiva da democracia racial. Ela ainda está posta em nosso cotidiano e ela pesa no momento de discutir a questão racial. Para desenvolver essa pesquisa, tive muita dificuldade para me inserir nas escolas e discutir essa questão. Isso parte da perpetuação da democracia racial, que nega a discussão sobre o tema entendendo que ela não é necessária. O próprio movimento negro, os coletivos e núcleos de consciência negra, os coletivos das escolas e os núcleos de estudos são estruturas que permitiram algumas mudanças e transformações positivas. Elas têm trazido uma valorização. O chamado empoderamento sai dessa organização, desses grupos e do dialogo feito por estes movimentos. Isso é um avanço. Mas também temos que pensar na questão de mercado. A estética no Brasil movimenta milhões. Então temos que falar na questão do padrão de beleza. Agora posso usar meu black (power), mas tenho que usar uma faixa ou determinado produto. Se quiser usar cachos, não posso deixar natural. Então não podemos cair na cilada das ditaduras da beleza, feita pela indústria cosmética, e da própria questão de gênero, pois a questão da estética é associada a mulher, como se ela tivesse que seguir um padrão reproduzido. Nas escolas e no país, de uma forma geral, existe um padrão de beleza e de estética que é branco e heterossexual.

Independente – Quer deixar alguma mensagem final?

Caroline – Eu acho que a discussão da discriminação racial, principalmente no espaço educativo, ainda não tomou a importância e a centralidade necessárias. Todo profissional da educação precisa pensar nessa questão racial e entender como é a vivencia e a trajetória das crianças negras no espaço educativo. Entender como isso impacta na trajetória e no desempenho dessas crianças, além de perceber como isso causa sofrimento. Acho que isso é um dever do professor pensar nessa perspectiva e criar formas para modificar essa estrutura. Então a inserção da história e cultura africana e afro-brasileira no espaço educativo é necessária para que a criança construa uma identidade negra e indígena que de fato as valorize. Para que elas tenham o reconhecimento e consigam olhar a si e a seus pares de uma maneira positiva, conseguindo superar barreiras e acho que a escola não é o único espaço em que isso pode acontecer, mas é um dos lugares mais importantes, em que temos maiores possibilidades de construir novos conhecimentos e novas representações sociais.

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