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Progressismo e conservadorismo no Rio de Janeiro


Marielle Franco está eternizada como símbolo das lutas sociais e populares

Por André Henrique

O PSOL assumiu o protagonismo da esquerda no Rio de Janeiro. É o pós-brizolismo.

Uma esquerda que mobiliza a maioria das elites culturais cariocas e que também tem força na juventude, periferias e universidade. Uma esquerda que votava Leonel Brizola e hoje vota PSOL.

Uma esquerda que se sustenta sob uma base social histórica e que tende a crescer com a consolidação de movimentos sociais culturais e identitários.  Muitas lideranças nascem daí. Marielle Franco foi uma delas.

A morte da vereadora aumentará a força do PSOL, dos movimentos sociais e das causas pelas quais ela lutava. Do ponto de vista político, os algozes atiraram no próprio peito. Do aspecto humano, a perda é irreparável, sobretudo para os amigos e familiares.

Não resta dúvida que Marielle Franco entrará pra história como um dos maiores símbolos da esquerda e das lutas sociais.

Isso mostra que, apesar de lideranças morrerem e partidos desaparecerem, as bandeiras permanecem. A longevidade das bases sociais depende de mobilizações permanentes e referências – os líderes (Marcelo Freixo) e os símbolos (Brizola-Marielle). A esquerda carioca tem isso.

Entretanto, não se pode desprezar o capital político conservador, no Rio de Janeiro. A votação da família Bolsonaro e a eleição de Marcelo Crivella mostram isso. Narrativas regressivas, construídas nas tocas virtuais de extrema-direita, têm grande penetração nas periferias, especialmente por meio de igrejas neopentecostais.

Tal cenário exige que as esquerdas estabeleçam diálogo estratégico com as periferias, porque a maioria dos pobres parece compartilhar da ideia de que os direitos humanos só existem para bandidos e que a solução para o problema da violência passa pela tirania do estado. Só se desarma essa bomba convencendo as pessoas do contrário. Dialogando.

A difusão de valores neoliberais ajuda a formar uma cultura individualista  cada vez mais hostil à política e a lutas coletivas. Tal cultura está muito enraizada nas classes populares. Como pactuar saídas coletivas, para problemas sociais, em uma sociedade que se fragmenta aceleradamente? Mais um desafio.

Vale destacar que não é certo “satanizar” igrejas. Tratar a fé das pessoas com menoscabo é preconceito. Sem contar que é preciso reconhecer que muitas pessoas encontram nas igrejas os laços de solidariedade que a sociedade líquida destrói. O problema não está em uma religião, especificamente, mas no fato de várias delas serem capturadas por narrativas fascistas – tais discursos estão a infiltrar outros segmentos sociais, inclusive a juventude. As esquerdas têm de disputar esses espaços, não hostilizá-los.

Por exemplo, são crescentes as manifestações de denominações evangélicas – que procuram se diferenciar das linguagens ultra-reacionárias – por mais tolerância com a diversidade, tal fato mostra que existem vias pelas quais as esquerdas podem construir pontes com esses setores, assim como fez um dia com a igreja católica.

Em suma, a particularidade da esquerda no Rio de Janeiro está em sua força nos andares de cima. Ao contrário da hegemonia reaça que graça em São Paulo, das favelas aos condomínios de alto padrão. O Rio é uma das principais trincheiras do esquerdismo pátrio, mas também um território pelo qual se propaga neoliberalismo e conservadorismo reacionário.

A batalha por corações e mentes seguirá, agora com um grande símbolo: Marielle Franco. A sua morte foi um capítulo desse processo, tendo em vista que despertou a ira da direita raivosa, redes de boataria e uma onda de solidariedade gigantesca. Marielle vive e viverá.

 

 

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