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Manuela D’Ávilla e Guilherme Boulos, os zagueiros titulares de Lula


Ao contrário de outras eleições, a esquerda contará com dois jovens candidatos desembaraçados e preparados para fazerem a defesa do legado de Lula e dos símbolos da esquerda.

Fiz a cobertura das manifestações solidárias a Lula em São Bernardo e o que mais me chamou atenção foram as reiteradas vezes que o ex-presidente mencionou Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D’Ávilla (PC do B) como renovações. Cumpre citar que os dois são pré-candidatos à presidência da República.

Foi como se o ex-presidente estivesse a passar a faixa para os jovens esquerdistas. Boulos tem 35 anos e Manuela 36. Lula erguia as mãos deles em direção ao futuro, mas também a 2018. Lula precisará de bons zagueiros durante as eleições presidenciais para a defesa do seu legado e para retratá-lo como perseguido político.

Os símbolos das esquerdas estão sob intensos ataques, seja pela criminalização de lideranças seja pelo desmonte do estado de bem-estar social. O golpe parlamentar em Dilma Rousseff e a condenação de Lula marcada por excepcionalidades e arbitrariedades são os principais capítulos desse processo de desconstrução, portanto, interceder por Lula significará reafirmar conquistas das esquerdas e politizar a eleição.

Isso é tudo que os neoliberais não querem. O cenário ideal para a direita sem votos e sem lideranças é uma eleição despolitizada, com poucos debates e vários candidatos. Uma confusão para desanimar o eleitorado e eleger um poste do mercado. Para as alas golpistas da mídia e do mercado financeiro, quanto menos se falar em Lula, melhor. A não ser que o petista comece a perder popularidade.

Tanto assim é que as falanges da Lava-Jato realizam os mais diversos contorcionismos para manter Lula isolado. Impediram a visita de dez governadores e três senadores, sobrepondo regras de carceragem à lei de execução penal, artigo 41 – que segundo o governador do Maranhão, Flávio Dino, primeiro colocado no concurso pelo qual Sérgio Moro também foi aprovado, garante ao preso o direito à visita.

As exceções contra Lula alimentam as ondas nacionais e internacionais de resistência à sua prisão. Mas não se sabe se esse clima se tornará gigantesco a ponto de proporcionar-lhe liberdade, nem dá para mensurar os impactos políticos se Lula estiver preso durante a peleja eleitoral.

A primeira pesquisa Datafolha para presidente pós-prisão trouxe Lula acima dos 30% com o dobro do segundo colocado Jair Bolsonaro (caiu para 15%) e o triplo da terceira Marina Silva (com 10%). Números prévios da Vox Populi trazem Lula acima dos 40%, em primeiro lugar. O petista cresce e seus adversários não deslancham, eis o busílis da direita.

A IPSOS aponta que 73% consideram Lula vítima de um golpe perpetrado por poderosos para tirá-lo das eleições. Isso mostra que mesmo entre os que não gostam dele a maioria vê a sua condenação como jogada política, o que é ruim para a Lava-Jato e Sérgio Moro.

Os carrascos do ex-presidente tentarão liquidar o seu capital político, as esquerdas vão agir para o contrário. O Datafolha mostra que o petista tem potencial de transferência de 66%. Altíssimo. A figura de Lula se confunde com as bandeiras de esquerda e a influência dele pode garantir um candidato progressista no segundo turno.

Decorre daí a importância de Guilherme Boulos e Manuela D’Ávilla. Além da defesa do legado de Lula e da denúncia do caráter político de sua prisão, os jovens comunistas estarão na contenção para bloquear e contra-atacar ataques anti-esquerdistas advindos de Jair Bolsonaro e seus acólitos de extrema-direita.

Boulos e Manuela vão se somar a Ciro Gomes na apresentação de uma alternativa nacional-desenvolvimentista e terão de convencer os brasileiros que a agenda impopular do governo Temer é a mesma do PSDB derrotada em quatro eleições pelo PT e contra a qual Joaquim Barbosa e Marina Silva não se posicionam.

A direita teme tal contraposição de projetos porque nesse terreno perdeu quatro eleições em sequência para o PT e sabe que as suas reformas são impopulares. À esquerda esse certame e a manutenção da força política de Lula são essenciais para garantir um lugar no segundo turno. Sem Lula, na disputa, restará a Manu e Boulos colocarem as pautas progressistas na mesa.

Notem que em nenhum momento eu escrevi que eles vão ganhar a eleição, mas chamo a atenção para o papel que vão desempenhar devido às peculiaridades da conjuntura e por suas qualidades individuais. Boulos e Manuela têm conteúdo político, mas não são prolixos e chatos, ao contrário, eles se comunicam bem, são desembaraçados e carismáticos, além de atrevidos e provocadores. A presença deles será interessante.

Há quem diga que Boulos será o novo Lula. Trata-se de uma carga excessiva e fora de hora nas costas do líder do MTST. Boulos e Manuela vão se construir como lideranças à medida que acumularem feitos políticos. Isso se dará ao longo das décadas. Caem sobre suas costas desafios maiores que eles imaginavam em 2018. Política é assim. As circunstâncias fazem as lideranças. O cavalo selado passou e os dois subiram. A ver como vão se sair.

A esquerda estará unida?

Ao contrário de Ciro, os jovens comunistas dificilmente vão se esquivar de defender Lula e as esquerdas, mesmo que o petista esteja por baixo. PSOL, PC do B e PT estão alinhados. O brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e a prisão de Lula promoveram relativa unidade nas esquerdas. Os atos no ABC e as vigílias em Curitiba mostram isso. O mais provável na eleição será um entrosamento de discursos e estratégias no primeiro turno. Uma aliança ampla ficará para o segundo.

A temperatura das estratégias dependerá de como estará a imagem de Lula. O ex-presidente será determinante, de um jeito ou de outro. Nem a morte o riscará do mapa político, brasileiro e mundial. Ao contrário, Lula é um símbolo imortal, não por outra razão Marielle vive. Mas para além da eternidade existem disputas concretas em 2018, vai daí os destaques para Boulos e Manuela.

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