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Para além da hipocrisia e da negação da política


Sem partidos, a política é terreno da tirania
A negação dos partidos é uma das faces do fascismo

O Brasil tem um sistema político problemático. Fato. Mas não só, o arcabouço institucional em geral está cheio de teias de aranha, privilégios e vícios. Inclusive o poder judiciário.

Os destinos da sociedade brasileira, para o mal e para o bem, são influenciados por valores individualistas, pressões dos interesses internacionais, egoísmos imediatistas (das elites econômicas), estruturas sociais atrasadas, pelas lutais sociais etc. Os males e benefícios advindos desse processo social marcado por conflitos influenciam diretamente o funcionamento das engrenagens institucionais.

Portanto, ainda que se construa o sistema político mais bonitinho da praça, conviver-se-á com disfunções e crises. A institucionalidade não está imune às moléstias presentes na sociedade. Vide o autoritarismo de certos juízes que se querem demiurgos. Uma das formas de o coronelismo (das estruturas sociais atrasadas mais tradicionais em terras pátrias) se perpetuar é tendo representantes no Congresso.

Outro exemplo está na relação empresariado-estado. A busca incessante por negócios lucrativos leva empresários a se locupletarem com agentes do estado – concursados ou não e eleitos ou não-eleitos – em relações quase sempre necessárias, dadas as amarras do sistema. Como a atividade política tem o seu custo e os indivíduos as suas ambições materiais, a confluência infernal desses interesses, em meio a institucionalidades ineficazes, é a causa da maioria dos escândalos de corrupção que pipocam por aí.

O país não irá se livrar desse cancro, com um juiz vingador e a prisão (justa ou injusta) de dois ou três figurões, sem atacar as questões estruturais. A hipocrisia não nos levará ao paraíso, ao contrário, ela já nos condenou ao inferno.

É perda de tempo discutir as mazelas políticas procurando vilões e mocinhos. Quais partidos e políticos são os culpados por essa droga? Ou: quais juízes, partidos e líderes são/serão os mitos que vão nos salvar com suas varinhas mágicas?

Fazer reformas pode ajudar, resta saber quais reformas atacam os problemas na raiz e a quais interesses elas atendem. E mesmo com as reformas mais maravilhosas do universo a institucionalidade dificilmente estará livre dos vírus presentes na sociedade. Um deles é o fascismo, um sentimento de ódio que prospera com a criminalização (e a negação) da política e a polarização partidária dos que procuram demônios e salvadores da pátria.

As lutas e as mudanças na esfera institucional nascem das conquistas no terreno social. Das luzes provocadas pelo debate democrático e pelas lutas sociais dos injustiçados brotam as vitórias contra a escuridão do fascismo e do elitismo. Livrar-se da hipocrisia e do maniqueísmo talvez ajude a avançar e a enxergar a realidade com menos simplismo e menos ódio.

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