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PT x PSDB, de novo?


Coesão de centro-direita e coesão mínima à esquerda complicam Marina Silva, Jair Bolsonaro, Álvaro Dias e Ciro Gomes

Coluna “Fala, André”, no Canal do Bernardi. O cientista político e editor do Rede Popular, André Henrique analisa o cenário eleitoral:

Pílulas eleitorais

1 – Jair Bolsonaro terá dificuldades para chegar ao segundo turno – e, para vencer a eleição, caso alcance o segundo turno. A rejeição dele entre os que o conhecem, de acordo com pesquisa do Datapoder360, é de 76%. É o candidato mais rejeitado. Disputará a eleição tendo apenas 07 segundos de tempo de televisão, sem coligação partidária e capilaridade nos estados e municípios. Terá como vice, o militar Hamilton Mourão, segundo o qual, a dificuldade para o Brasil “transformar seu potencial estratégico em poder” se deve à “indolência” do indígena e à “malandragem” do africano. Com esse tipo de discurso, Bolsonaro se limita às bolhas de extrema-direita.

2 – O direitista aposta suas fichas na crise da política tradicional para quebrar a hegemonia tucano-petista dos últimos vinte e quatro anos. Seria a vitória de um candidato em teoria forjado nas redes sociais contra as estruturas tradicionais de poder (coligações, tempo de TV, compadrio e tudo que daí advém).

3 – À centro-direita, depois de se aliar ao conjunto de partidos denominado centrão, Geraldo Alckmin é quem mais se fortaleceu, com recursos, capilaridade (em estados e municípios) e tempo em TV e rádio. O ex-governador de São Paulo terá 05 minutos no horário eleitoral, dos 12 minutos totais, além de mais inserções nos comerciais de televisão e rádio. O tucano aposta em um fracasso do PT na tentativa de viabilizar juridicamente a candidatura de Lula à presidência ou em transferir seu capital político para seu vice Fernando Haddad.

4 – Entretanto, a coesão à centro-direita abriga uma série de contradições e a pauta econômica de Alckmin se confunde com a de Michel Temer. Os adversários vão afirmar que um governo do PSDB seria a continuidade das políticas de entrega do patrimônio nacional, de retirada dos direitos sociais e do desmonte do estado de bem-estar social. Seria um governo Temer sem o Temer. O centrão abriga oligarquias reacionárias e acusadas de corrupção. Alckmin terá de responder a isso. Será mais complicado em caso de um segundo turno polarizado com uma esquerda unida (PT-Ciro-Boulos e Manuela).

5 – Kátia Abreu será a vice do Ciro Gomes. Kátia Abreu se queimou com a direita por sua fidelidade a Dilma e jamais foi aceita pela esquerda por sua relação umbilical com o agronegócio. Ela exerce liderança em parte do ruralismo, mas não agrega eleitoralmente. A escolha é resultado do isolamento que Ciro sofreu nas últimas semanas.

Hangout do Rede Popular com o Canal do Bernardi. Tema: a chapa Lula-Haddad e Manuela

6 – O PT lançou uma chapa de Lula candidato com Fernando Haddad vice, já presumindo que o ex-presidente será impugnado em 17 de setembro, pela Lei de Ficha Limpa. Haddad seria o substituto, e Manuela D’Ávila (PC do B) assumiria o posto de vice. Enquanto Geraldo Alckmin investe na força das coligações para deixar Jair Bolsonaro comendo poeira no primeiro turno. Lula acredita em um repeteco das últimas quatro eleições presidenciais, com o PT se sobrepondo ao PSDB no discurso econômico. A volta do PT ao poder seria o retorno das glórias sociais e econômicas da era Lula, e a eleição de Geraldo Alckmin a continuidade das políticas recessivas do governo Temer.  Reitero: caso a esquerda esteja coesa no segundo turno, Alckmin teria dificuldades para escapar dessa armadilha que custou quatro eleições presidenciais ao PSDB, pois as perspectivas dos brasileiros quanto ao futuro são ruins, devido ao cenário de precarização de serviços públicos, de ameaça a direitos e de desemprego.

7 – O PT foi criticado por não abrir mão de ser a cabeça de chapa de uma eventual candidatura à presidência da República. Não faria sentido o partido ceder, sem lutar, tendo em vista que o mesmo compreende que foi apeado do poder por um golpe parlamentar e que seu principal líder foi preso injustamente para não disputar as eleições. A liderança de Lula em todas as pesquisas justifica ainda mais a decisão do PT. E mais: o partido sofreu um esvaziamento em 2016, perdendo várias prefeituras, não ter o candidato à presidência poderia enfraquecer a sigla porque muitos eleitores votam na legenda por conta do candidato a presidente. Não faria sentido o PT entregar gentilmente ao PDT ou ao PC do B um capital político acumulado por décadas. Na disputa com Ciro, por alianças; Lula, da cadeia, e o PT, venceram. Resta saber se as marcas deixadas vão impedir uma aproximação entre as partes, no curso da eleição. Manuela D’Ávila e Fernando Haddad evitam criticar Ciro. Haddad chegou a dizer que espera contar com o PDT no segundo turno.

Guilherme Boulos – com retórica e conteúdo, o candidato do PSOL tende a fazer a crítica ferrenha aos candidatos de direita – especialmente Bolsonaro e Geraldo Alckmin – e à agenda econômica do Michel Temer e do PSDB. Boulos fará a defesa de Lula e trará os movimentos sociais para o centro da eleição. Será um soldado de peso para o exército de esquerda nessa campanha que tende a ser uma das mais acirradas e judicializadas desde a redemocratização.

8 – A pulverização de candidaturas do campo hegemônico nivelaria os concorrentes em estrutura aumentando as chances dos candidatos que se colocam contra a política tradicional (apesar de estarem pendurados nas tetas do estado há décadas). São eles: Jair Bolsonaro, Marina Silva e Álvaro Dias (candidato da Lava-Jato). A coesão da centro-direita e a coesão mínima da centro-esquerda complicam a caminhada desses candidatos e a de Ciro Gomes. Marina Silva era uma das principais beneficiárias das pesquisas sem Lula na disputa; um dia após o lançamento da chapa Lula-Haddad, levantamentos (aqui) encomendados pela corretora XP e realizados pelo Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) mostraram Fernando Haddad saltando de 02% para 13% quando apresentado como candidato de Lula. O ex-prefeito fica atrás apenas de Jair Bolsonaro, que aparece com 20%.  Os tucanos entendem que pelas estruturas do PSDB e do Centrão vão levar Geraldo Alckmin ao segundo turno. Será mais uma eleição polarizada por PT e PSDB?

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